Quando cheguei ao Sindicato dos Engenheiros, em meados da década de 1990, mantinha longas conversas com o engenheiro Agamenon, que também exercia função de diretor naquele período. Nossos diálogos giravam, de forma recorrente, em torno do despreparo dos profissionais de engenharia, independentemente da especialidade, para lidar com áreas fundamentais que extrapolam o domínio técnico.
Observávamos que muitos engenheiros apresentavam dificuldades em compreender conceitos básicos de sociologia, demonstravam pouca ou nenhuma afinidade com as questões ambientais e mantinham um distanciamento significativo da língua portuguesa. Isso se deve, em grande parte, ao modelo de formação acadêmica, que prioriza intensamente os cálculos e acaba gerando, em muitos casos, uma verdadeira aversão à leitura e à produção de textos.
Entendo — e continuo entendendo — que essa lacuna formativa é preocupante. Os engenheiros são profissionais diretamente responsáveis pela transformação de grupos sociais e de conglomerados urbanos. Ao desenvolver projetos ou realizar intervenções técnicas, suas decisões podem alterar de forma significativa o comportamento, a dinâmica e a qualidade de vida de um determinado habitat.
Nesse contexto, considero que as escolas de engenharia ainda não abordam as questões ambientais com a ênfase necessária. Falta uma formação que prepare o engenheiro para atuar de maneira mais consciente, buscando, sempre que possível, reduzir os impactos ambientais de intervenções que, em muitos casos, são naturalmente deletérias ao meio ambiente.
Outro ponto relevante diz respeito à relação entre engenharia e arquitetura. Os arquitetos, a meu ver, cometeram um erro significativo ao tentar afastar os engenheiros do debate sobre a política urbana das cidades, possivelmente sob o pretexto de defesa de mercado. As cidades e os municípios são os espaços onde as pessoas vivem diariamente e, por isso, existe obrigatoriamente uma relação técnica indissociável entre arquitetura e engenharia.
Essas duas áreas precisam atuar de forma afinada e convergente, com o objetivo comum de oferecer à população uma vivência urbana mais confortável, segura e sustentável. A exclusão de qualquer uma dessas disciplinas do debate urbano empobrece o planejamento e compromete os resultados.
Vale acrescentar que, atualmente, grande parte dos projetos de engenharia exige dos profissionais uma elevada performance na língua portuguesa, tanto no aspecto verbal quanto na escrita. Relatórios técnicos, laudos, pareceres, perícias e avaliações demandam clareza, precisão e domínio da comunicação.
Essas deficiências formativas ficam evidentes nos depoimentos de diversos entrevistados do Podcast Papo de Engenharia, especialmente entre os profissionais que atuam nas áreas de perícia técnica, autovistoria predial, avaliação de imóveis, avaliação de equipamentos, entre outras atividades que exigem elevado rigor técnico aliado a uma comunicação eficiente.



